Escolhi hoje, o dia que nasci, para contar uma história que muitos acham contrária ao sentimento de aniversário. E de fato, é uma antítese. Escolhi contar uma história que termina com um personagem a menos.
Dizer que eu me lembro dela com todos os detalhes seria uma mentira. Eu era pequeno, distraído e vivia correndo pelos cantos.
Se fosse qualquer outro dia que não esse, o meu eu criança teria acordado tarde e cheio de preguiça diante do dia. Mas não era. Era O dia. Eu só não sabia disso ainda.
Acordei cedo. Ou pelo menos, cedo para o que me era normal. A cozinha de madeira rangente já estava cheirando a chá quando desci, de pijama e cheio de sono. A casa estava estranhamente vazia. Seis pessoas moravam nessa casa, a madeira agradecia o descanso que tinha quando nenhum dos pares de pés pisavam-a sem piedade. Naquele dia, porém, a casa inteira parecia ansiar por movimento.
Olhando pela janela da cozinha, que dava para o quintal, era possivel ver que os membros da casa estavam despreocupadamente tomando café da manhã na grama. E cinco logo viraram seis, quando um eu criança atravessou o quintal correndo até a toalha, perturbando momentaneamente o silencio que dava uma sensação de paz ao momento. Tomei meu lugar de sempre, no colo do meu pai. Era um dia ensolarado, raro na região.
A refeição foi feita e retirada. Os pratos foram lavados, secados e guardados. Sob apelos de uma criança que tinha energia de sobra, os irmãos se reuniram para passear a cidade toda. O pai ficou. Ele sempre ficava. Nas poucas vezes que saia, não ia longe. Não por ser demasiadamente idoso ou teimoso. A algum tempo, grande parte da alegria lhe fora roubada. Sua mulher o deixou. Ninguém nunca entendeu o que viram um no outro, para começo de conversa. A mulher era ranzinza, gritalhona e rude. Ele, calmo, discreto e tão gentil quanto o vento que sopra o rosto na primavera.
Desde que ela se foi, ele passou a ser como um dos quadros da casa. Poderia ser visto fora dela, mas faria imensa falta na decoração.
Pouco antes de escurecer, meus irmãos deixaram o meu eu criança na porta de casa antes de saírem para encontrar com as moças na praça. Eu, inocente e animado que sempre fui, entrei correndo casa a dentro, pouco notando as pequenas diferenças. Alguns quadros fora do lugar, um vaso derrubado e a sua água caída no tapete. Não, minha mente apressada de criança não computou nada disso.
Mas a cena que era apresentada a minha frente na sala ficou tão gravada em mim que me dividiu em dois.
No sofá de 4 lugares, estava deitado o homem que eu mais amei durante a minha vida toda. Meu pai, pálido e sujo de todos os tons de sangue que pode-se imaginar possível, os olhos fechados e o corpo imóvel.
Dizer que me lembro de qualquer outra coisa depois disso seria mentira. E acho que só tenho a agradecer por não lembrar. Eu sei o que aconteceu, entenda. Mas sei que essa memória não é minha, apenas foi formada pela minha imaginação quando me contaram o fato.
Levaram-o ao hospital quando voltaram da praça. Eu não o larguei até que a ambulância o levou. Ainda estava vivo e isso era a única esperança dos meus quatro irmãos.
Eu sabia. A casa sabia. Os homens da ambulância sabiam. Meu pai sabia. Aquele dia seria seu último. A casa rangeu um adeus dolorido. Os homens da ambulância nos olhavam com pena e um pequeno desespero.
Aquelas paredes brancas do hospital foram testemunhas de preces muito mais sinceras dos que as ditas em igrejas. Eram 5 apelos individuais, desesperados, chorosos e tempestuosos que nunca foram pronunciados, mas eram mais claros do que qualquer palavra que pudesse ser dita no momento.
Sei que pedi que ele voltasse. Sei que chorei por toda a estadia naquela sala de espera. Sei que quando sai dela, com meus avós me carregando, deixei um pedaço de mim lá dentro. Assim, escondido na sombra de um vaso, pra ninguém achar.
Não tive tempo de absorver nada do que havia acontecido. A mulher que matou a primeira parte do meu pai agiu rapido demais. Ela nos colocou no primeiro avião para sua casa, sem nos dar tempo de dar adeus a nada nem ninguém.
Foram as 18 horas mais longas de todos os meus 19 anos. O garoto inquieto e energético que fui ficou naquela sala de espera. Minha cabeça continuava o mesmo mar agitado que sempre foi. Mas agora, pegava fogo. Era o mar de um lugar impossível de se viver.
Devo dizer que o que seguiu não foi bonito. Mas ter outras dores para doer ajudou, um pouco. Não tinha tempo para pensar em nada do que aconteceu antes de chegar ao país onde minha mãe morava.
Nada se falava dele. Nenhuma foto, lembrança, palavra. Nem mesmo entre os irmãos. Mas entre nós, palavras eram apenas enfeites. Sabíamos exatamente a dor que cada um sentia e nos ajudávamos da melhor maneira que os nossos "eu" quebrados podiam.
Da casa que rangia não pudemos levar nada. Ela foi vendida com uma rapidez assustadora. Qualquer lembrança ou objeto que tivesse sua essência no meu pai foi afastada da nova casa.
Mas ninguém impediu que a informação de uma pedra de mármore fincada no chão chegasse aos nossos ouvidos. E foi ela que mais doeu. Estilhaçou o que já estava em pedaços. Não era uma despedida, como minha mãe queria que fosse.
"Que as estradas se estiquem para te encontrar
Que o vento sopre sempre as suas costas
Que o sol seja sempre morno em sua pele
E que a chuva caia suavemente sob suas terras.
Até que nos encontremos novamente,
que Deus o tenha na palma da mão"
Era um até logo.

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